A MORTE DE ANTÍOCO EPÍFANES lV


  • Judas se levanta contra a opressão do rei
  • Judas suplica socorro a Deus
  • Judas fortalece seus companheiros lembrando as vitórias dos seus antepassados
  • Judas com a ajuda de Deus vence os inimigos
  • Antíoco Epífanes IV morre pela intervenção da mão de Deus



Judas, apelidado Macabeu, e seus companheiros penetravam secretamente nas aldeias e convocavam seus parentes: arrastando consigo todos os que se haviam mantido fiéis ao judaísmo, formaram um grupo de aproximadamente seis mil homens.
Suplicavam ao Senhor que olhasse para o povo desdenhado por todos, que se compadecesse do Templo profanado pelos ímpios;
que tivesse compaixão da cidade devastada, perto de ser reduzida ao nível do solo; que escutasse a voz do sangue derramado que a ele clamava;
que se lembrasse da desumana carnificina de meninos inocentes e que vingasse também as blasfêmias proferidas contra Seu Nome.
Judas tornou-se o chefe da tropa e os gentios viram-se incapazes de resistir-lhe porque a cólera de Deus tinha-se convertido em misericórdia.
Atacava de improviso as cidades e aldeias e as incendiava; ocupava as posições favoráveis, de onde afugentava não poucos de seus inimigos.
Era principalmente à noite que ele empreendia essas expedições, e a fama de seu valor espalhava-se por toda parte.
Vendo Judas progredir dia a dia e alcançar sempre frequentes vitórias, Filipe escreveu ao governador da Celesíria e da Fenícia, Ptolomeu, e pediu-lhe auxílio para defender os interesses do rei.
Quando viu que Judas ia pouco a pouco chegando ao sucesso, e subindo firmemente de vitória em vitória, Filipe escreveu a Ptolomeu, comandante da Celessíria e da Fenícia, pedindo que fosse socorrer os interesses do rei.
Imediatamente, este designou Nicanor, um dos primeiros amigos do rei e filho de Pátroclo, e o enviou à frente de uns vinte mil homens de todas as nações para exterminar toda a raça judia. Agregou a ele Górgias, general perito em assuntos de guerra.
Nicanor esperava obter, com a venda dos judeus que fossem aprisionados, os dois mil talentos que o rei devia como tributo aos romanos.
Enviou sem perda de tempo, às cidades da costa, o convite para que viessem comprar judeus, prometendo entregar noventa escravos por um talento. Mas não suspeitava então de que o castigo do Todo-poderoso iria cair sobre ele.
A notícia do avanço de Nicanor chegou a Judas, o qual informou aos seus da chegada dos inimigos.
Num relance, os que tinham medo ou não tinham confiança na justiça de Deus, fugiram e dispersaram-se;
outros venderam seus pertences, suplicando ao Senhor que os livrasse do ímpio Nicanor, que os havia vendido antes mesmo de tê-los em mãos.
Se não por eles, que o fizesse ao menos em consideração às Alianças estabelecidas com seus pais e porque seu Santo e Sublime Nome tinha sido invocado sobre eles.
Macabeu reuniu então ao redor de si seus homens, em número de seis mil, exortou-os a não se deixarem intimidar pelos inimigos, nem temerem essa massa de gentios que vinha injustamente contra eles, e que combatessem com valentia;
que pensassem na indigna profanação infligida por eles ao Templo, na humilhação imposta à cidade devastada e na ruína das tradições de seus antepassados.
Eles confiam, dizia ele, nas suas armas e na sua audácia, mas nós colocamos nossa segurança no Deus Todo-Poderoso, que pode, com um só leve aceno, desbaratar tanto os que nos atacam como o universo inteiro.
Lembrou-lhes no passado o caso da proteção divina: como, por exemplo, do exército de Senaquerib, haviam perecido cento e oitenta mil homens;
e, na batalha contra os gálatas em Babilônia, oito mil judeus tiveram de lutar ao lado de quatro mil macedônios; como estes se achavam numa situação crítica, os oito mil judeus massacraram cento e vinte mil inimigos, por causa do socorro que lhes foi dado do céu, e alcançaram um vasto despojo.
Após ter reconfortado seus companheiros e tê-los preparado a morrer pelas Leis e pela pátria, dividiu o exército um quatro corpos
colocando à frente destes seus irmãos Simão, José e Jônatas, como também Eleazar, cada qual chefiando mil e quinhentos homens.
Apenas terminada a leitura do Livro Santo e dada a senha: Socorro de Deus, ele mesmo pôs-se à frente do primeiro corpo e travou a batalha contra Nicanor.
O Todo-Poderoso combatia com eles: massacraram mais de nove mil inimigos, feriram e mutilaram a maior parte dos soldados de Nicanor, e os puseram em fuga.
Apoderaram-se também do dinheiro dos que tinham vindo para comprá-los, e perseguiram por muito tempo os vencidos, mas tiveram que desistir, impedidos pelo tempo,
porque era véspera de Sábado, e isso os impedia de prosseguir.
Após terem tomado as armas deles e despojado os cadáveres dos inimigos, celebraram o Sábado de maneira extraordinária, louvando e agradecendo ao Senhor que nesse dia os libertou, marcando assim o início da sua misericórdia para com eles.
Passado o Sábado, eles reservaram uma parte dos espólios para os que haviam sofrido com a perseguição, as viúvas e os órfãos, e dividiram o resto entre eles e seus filhos.
Depois disso, fizeram uma súplica coletiva, pedindo ao Senhor misericordioso que se reconciliasse totalmente com seus servos.
Nos diferentes combates com os soldados de Timóteo e de Báquides, eles mataram mais de vinte mil e tornaram-se senhores absolutos de várias praças fortes. A abundante presa dividiram-na em duas partes iguais: uma para si mesmos, outra para os perseguidos, as mulheres, os órfãos e mesmo os anciãos.
As armas que eles haviam recolhido foram colocadas diligentemente em lugares seguros e levaram a Jerusalém os demais despojos.
Mataram o chefe dos guardas de Timóteo, um dos homens mais perversos, que havia feito muito mal aos judeus.
Quando estavam celebrando na pátria a festa da vitória, queimaram vivos aqueles que tinham incendiado os portais sagrados e também o tal de Calístenes, que se havia refugiado numa casa. Assim eles receberam o castigo merecido pela profanação que tinham cometido.
O tríplice celerado Nicanor - que fizera vir mil negociantes, para vender-lhes os judeus -
humilhado, graças a Deus, por aqueles que ele desprezava profundamente, despojou-se da vestidura de honra, e, atravessando o interior do país sozinho, como um fugitivo, chegou a Antioquia, feliz por ainda ter podido escapar ao desastre de seu exército.
E ele, que tinha prometido pagar o tributo aos romanos com o dinheiro que tiraria da venda dos cativos de Jerusalém, publicou que os judeus possuíam um protetor e que se tornavam invulneráveis quando observavam as leis estabelecidas por ele.

(2Macabeus 8)


Por essa mesma ocasião, Antíoco foi forçado a voltar desordenadamente das regiões da Pérsia.
Pois, entrando na cidade que se chamava Persépolis, ele havia tentado saquear o Templo e ocupar a cidade, mas o povo se revoltou e pegou em armas, para defender-se; com isso, Antíoco viu-se forçado pelos habitantes dessa região a começar uma retirada humilhante.
Achando-se perto de Ecbátana, soube da derrota de Nicanor e do exército de Timóteo.
Então, furioso, pensava em cobrar dos judeus a injúria sofrida diante daqueles que o tinham posto em fuga. Por isso, mandou seu cocheiro tocar a carruagem, seguindo em frente sem parar. entretanto o julgamento do céu já o estava alcançando. De fato, na sua arrogância, ele tinha dito: "Vou transformar Jerusalém num cemitério de judeus. Bata eu chegar lá!"
Mas o Senhor Deus de Israel, que tudo vê, feriu-o com um mal implacável e misterioso. Mal acabara de pronunciar essas palavras, aconteceu que ele foi assaltado por atrozes dores nas entranhas e agudos tormentos no interior;
e era muito justo, pois ele mesmo havia rasgado as entranhas aos outros por inauditos tormentos!
Entretanto, de nenhum modo abatia a sua arrogância, pelo contrário, sempre cheio de soberba, exalava o fogo da sua ira contra os judeus e mandava que se acelerasse a marcha, quando, repentinamente, caiu do carro que avançava impetuoso; a queda foi tão desastrada que ficou ferido por todo o corpo.
Assim aquele que, elevando-se pela sua soberba sobre a condição de homem, imaginava que podia dar ordens às ondas do mar e pesar numa balança as montanhas, ei-lo agora estendido sobre a terra em seguida levado numa liteira, provando assim aos olhos de todos a manifesta potência de Deus.
Do corpo deste ímpio saíam vermes, e, ainda vivendo, lhe caiam as carnes e pedaços no meio das dores, sendo tal o cheiro da podridão que dele saía, que incomodava todo o exército.
Aquele que pouco antes parecia capaz de tocar as estrelas do céu, agora ninguém era capaz de o carregar, por causa do mau cheiro insuportável.
Em tal situação, prostrado por sua doença, Antíoco começou a ceder em sua arrogância. Atormentado cada vez mais pelas dores, chegou a reconhecer o castigo divino.
Incapaz de suportar sua própria infecção: "É justo, dizia ele, submeter-se a Deus, e, como simples mortal, não se querer igualar a ele."
Este malvado orava ao Senhor, do qual não havia de alcançar misericórdia,
prometendo declarar livre aquela cidade, contra a qual antes se encaminhava apressado para a arrasar e reduzir a um sepulcro;
jurou que daria os mesmos direitos dos atenienses a todos os judeus, sobre quem havia decretado que não mereciam sepultura, mas que fossem jogados com seus filhos para servir de comida às feras e aves de rapina.
Jurou que enfeitaria, com os mais belos donativos, o Templo Santo, que ele mesmo tinha despojado. Jurou que devolveria, em número maior todos os objetos sagrados. Jurou que manteria com suas rendas pessoais, todas as despesas necessárias para os sacrifícios.
Além de tudo isso, jurou que se tornaria judeu e percorreria todos os lugares habitados do mundo, anunciando o poder de Deus.
Como as dores não passasem, pois a justa condenação de Deus o tinha atingido, e perdendo as esperanças de cura, Antíoco escreveu aos judeus, em tom de súplica, a seguinte carta:
"Aos dedicados súditos judeus, saúde, bem-estar e felicidade, da parte de Antíoco, rei e chefe do exército.
Se vós e vossos filhos passais bem e se vos sucedem todas as coisas como desejais, agradeço a Deus, em quem ponho minha esperança;
pois quanto amim, estou prostrado pela doença, mas me lembro com prazer dos vossos sentimentos de respeito e da benevolência para comigo. Ao voltar da Pérsia, surpreendido por um mal cruel, julguei necessário providenciar a segurança de todos.
Não que me desespere de meu estado, ao contrário, tenho a firme esperança de escapar dessa doença;
mas me lembro de que meu pai designava seu sucessor cada vez que partia em expedição às províncias superiores.
Ele queria que no caso de uma desgraça ou má notícia os habitantes do páis não se perturbassem, uma vez que soubessem a quem confiar os negócios.
Além disso considerando que os soberanos próximos e vizinhos do nosso reino estão à espera de uma oportunidade e observando o que acontece, nomeio como rei o meu filho Antíoco. É a quem em outras ocasiões, confiei e recomendei a maior parte de vós, quando partia para outras terras. A ele escrevi a carta abaixo:
rogo-vos, portanto, e peço que, em memória de meus benefícios para convosco, tanto gerais, como particulares, tenhais para com meu filho a mesma benevolência que para comigo,
pois estou convenciado de que ele seguirá minhas intenções e agirá convosco com moderação e humanidade."
Enfim, este homicida e blasfemo, presa de horríveis tormentos, como tinha causado aos outros, acabou a vida sobre os montes, longe da sua terra, com uma miserável morte.
Fez trasladar o seu corpo Filipe, seu amigo de infância o qual, todavia, temendo o filho Antíoco, partiu para o Egito, para junto de Ptolomeu Filometor.

(2Macabeus 9)



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